GT 01 – História Pública: Questões teóricas e metodológicas


GT 01 – História Pública: Questões teóricas e metodológicas

 

Coordenadores:
José Antônio Vasconcelos (USP)
Jurandir Malerba (PUC-RS)
Leandro Malavota (IBGE)
Ricardo Santhiago (UFF)

 

Pseudohistória, Conspiracionismo e Política: o caso do Negacionismo do Holocausto

Ricardo Figueiredo de Castro -Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

ricardofigueiredodecastro@gmail.com

A história e a memória de uma sociedade não são debatidas apenas pelos historiadores. Apesar de frequentemente os historiadores serem questionados sobre a relevância e a utilidade do trabalho historiográfico a história e a memória são a base de diferentes questões colocadas pelos cidadãos e instituições, especialmente nos assuntos e problemas relacionados ao poder, posto que a política está intimamente ligada, embasada em questões históricas. Entretanto, nem sempre esta demanda é suprida pelo acesso à historiografia produzida pelos historiadores com formação na disciplina. Frequentemente o que acontece é a produção de textos elaborados por pessoas de diferentes formações universitárias, como por exemplo, jornalistas, que oferecem produtos culturais que se adequam mais facilmente às exigências do mercado editorial e midiático. Com o avanço do processo de midiatização da sociedade no último quarto do século XX o papel ideológico exercido por estes produtos culturais (livros, sites, revistas, programas de TV etc.) tem se aprofundado e se consolidado como uma importante forma de produção cultural, competindo com a produção historiográfica disseminada sob a forma de “divulgação científica”. No entanto, interessa-nos aqui um tipo particular desse tipo de produto “historiográfico”, aquele que é caracterizado pelos membros do movimento cético estadunidense como pseudo-histórico, isto é, textos que, entre outras características consideram-se portadores de uma missão em prol da defesa de alguma plataforma política ou religiosa manipulando a escolha de referências bibliográficas e fontes primárias para a confirmação da tese que se quer confirmar. Além disso, tem um importante papel no universo ideológico da extrema-direita contemporânea. Existem atualmente diferentes exemplos de pseudo-história, tais como a Nova Cronologia, Afrocentrismo, a Teoria do Antigo Astronauta. Cada uma dessas correntes pseudo-historiográficas tem atualmente um vasto público consumidor de seus produtos culturais: revistas, livros, documentários, sites na WEB etc. Uma das principais correntes pseudohistoriograficas é a do Negacionismo do Holocausto (Revisionismo do Holocausto) que há décadas produz uma série de textos que se dedicam a provar que o Holocausto não existiu e que, na verdade, seria uma das provas de que existiria uma conspiração judaica internacional para dominar o mundo. O Negacionismo surgiu logo após a II Guerra Mundial com os livros do francês Robert Faurisson e do estadunidense Harry Elmer Barnes e se ampliou e se profissionalizou a partir de 1978 com a fundação de uma instituição nos Estados Unidos que usando um nome que sugere ser uma respeitável instituição acadêmica de historiadores se dedica a disseminar mundialmente o negacionismo, o antissemitismo e o conspiracionismo, o Institute for Historical Review (IHR). O Negacionismo do Holocausto é atualmente um dos principais elementos de coesão ideológica da grande diversidade dos grupos de extrema-direita, especialmente na França e nos Estados Unidos.

 

 

História Social das Propriedades e seus reflexos no Direito Autoral

Joana Campinho Rabello Corte Real Delgado – Universidade Federal do Rio de Janeiro

jo.cortereal@gmail.com

Essa pesquisa tem por objetivo analisar historicamente as formas de realização dos direitos de propriedade, a partir de suas transformações socioeconômicas e jurídicas, e apontar seus reflexos sobre a compreensão das relações jurídicas de direitos autorais, incorporando o debate e as reflexões sobre os comuns (“commons”). Inicia-se o trabalho com a exposição dos problemas derivados de uma análise excessivamente unilateral da história social da propriedade, enfatizando a repercussão dessa retórica nas construções jurídicas acerca dos direitos de propriedade. Logo após incursiona-se pela discussão, exaltada pela história e pela economia, das vantagens da propriedade privada e propriedade comum para a eficiência, equidade e sustentabilidade dos padrões de uso dos recursos. Enfatiza-se a apreciação do conhecimento como comum (common), ressaltando a natureza complexa desse recurso compreendido tanto como uma mercadoria quanto como uma força constitutiva da sociedade. A parte final da investigação apresenta, a partir dos pressupostos da historicidade, funcionalidade e relatividade das normas e institutos jurídicos, de que forma a releitura desses direitos contribui para uma revisão de alguns valores normativos fundamentais dos direitos autorais. A conclusão aponta para o descompasso do direito autoral brasileiro com os desenvolvimentos sociotecnológicos e jurídicos recentes e a necessidade de reafirmar os valores constitucionais que o orientam.

 

 

Autoria, propriedade e disseminação de informações: cuidados e limites relativos à produção historiográfica voltada a amplas audiências

Leandro Miranda Malavota – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

leandro.malavota@ibge.gov.br

Autoria, propriedade e disseminação de informações: cuidados e limites relativos à produção historiográfica voltada a amplas audiências

Leandro Malavota
Luigi Bonafé
(Analistas do IBGE. Doutores em História – UFF)

A cada dia cresce o interesse de instituições públicas e privadas pelo desenvolvimento de atividades de memória empresarial. A percepção da utilidade e importância de produtos de história/memória como instrumentos voltados a ações de branding, endomarketing e gestão do conhecimento abre espaços para a atuação de um conjunto de profissionais especializados no interior das organizações, incluindo os historiadores. Diante de algumas das possibilidades que se abrem em tal seara de trabalho ― como a elaboração de produtos editoriais e audiovisuais, promoção de exposições, construção de acervos de história oral, organização e divulgação de documentos históricos, entre outros ―, uma série de desafios de novo tipo se levantam, os quais, por vezes, mostram-se particularmente árduos. Destacamos dentre eles o enfrentamento de questões concernentes aos direitos de propriedade intelectual e de imagem. Se na produção historiográfica de natureza acadêmica, com a qual a maioria dos historiadores se mostra mais familiarizada, aspectos legais envolvendo autoria e propriedade dificilmente se apresentam como elementos essenciais a serem observados (exceto, obviamente, aquilo que diz respeito ao plágio), na produção voltada a grandes audiências eles se tornam mais visíveis e recorrentes. Partindo-se, portanto, de uma reflexão mais ampla sobre o ofício do historiador em instituições não acadêmicas, o presente trabalho tem como objetivo expor e discutir alguns dos cuidados a serem observados quanto ao uso e divulgação de produtos e conteúdos legalmente “protegidos”, tomando-se o trabalho desenvolvido no âmbito da Equipe de Memória Institucional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Memória IBGE) como um caso a ser estudado.

 

A Propriedade Intelectual e seu aparente conflito com o interesse coletivo.

Aline Pita Bulhões de Souza – Universidade Federal do Rio de Janeiro

pita.aline@gmail.com

Considerando que a propriedade intelectual consiste na materialização da proteção à criação humana, através da implementação de direitos de apropriação do homem sobre as criações, obras ou produções do intelecto humano, o presente estudo, pretenderá apresentar a evolução histórica da Propriedade Intelectual, que, basicamente, obteve maior expressão a partir da Primeira Revolução Industrial, onde houve a transição da estrutura rural para uma atividade eminentemente industrial, acelerando assim o desenvolvimento tecnológico, justificando a busca pelo domínio sobre o resultado do processo tecnológico, e o atual panorama da sistemática de proteção da propriedade intelectual e sua relação de aparente tensão entre os interesses particulares (produtores) e o interesse público (sociedade). A fins de exemplificar e pontuar o aparente conflito de interesses entre privado e commun, se dá, será trazida a necessidade do Estado em prover e custear meios para um efetivo acesso e formação cultural (haja vista o desenvolvimento não mais ser visto tão somente na perspectiva econômica, mas também com o fomento de valores que promovam a dignidade da pessoa humana). Ocorre que, o acesso livre (um dos meios necessários para a difusão cultural) conflita aparentemente com o direito privado (Direito Autoral – Domínio) do autor de obter retorno financeiro a fim de estimulá-lo a novas produções, produções estas necessárias também ao acesso. Assim, não se esquecendo da motivação de sua criação, menos de sua evolução histórica se faz necessário discutir a função social da propriedade, haja vista as inúmeras “limitações” quando a enfocamos numa perspectiva eminentemente privada. A propriedade é uma relação e não um instituto estático, uma vez que envolvem diversos atores e interesses (Relações Econômicas x Utilidade Pública): é uma relação entre proprietários e os outros. Assim a questão proposta para discussão está para além de definir o que é ou não patente de ser apropriado, mas suscitar soluções que dirimam o suposto conflito de interesses entre propriedade e commun.

 

História pública e sociologia pública: diálogos e interfaces em um campo interdisciplinar

Fernando Perlatto – Universidade do Estado de Minas Gerais

fperlatto@yahoo.com.br

Nos últimos anos, diversos trabalhos têm sido publicados em diferentes países procurando refletir teórica e metodologicamente sobre a categoria “história pública”. Trata-se, em grande medida, de pensar quer sobre a maneira de se fazer com que o conhecimento histórico seja difundido para audiências mais amplas, quer sobre as possibilidades de uma construção mais coletiva do conhecimento histórico em diálogo com públicos extra-acadêmicos, a exemplo dos movimentos sociais. Paralelamente às formulações em torno da “história pública”, tem-se testemunhado, ao longo dos últimos anos, uma produção crescente, sobretudo nos Estados Unidos, em torno da chamada “sociologia pública”, sobretudo a partir dos escritos de Michael Burawoy. Desenvolvendo suas ideias em torno de questionamentos “sociologia para que?” e “sociologia para quem?”, Burawoy propôs quatro tipos de prática sociológica – a saber, “sociologia profissional”, “sociologia crítica”, “sociologia pública tradicional” e “sociologia pública orgânica” –, que tiveram enorme impacto no campo sociológico mundial, impulsionando uma série de publicações e uma agenda ampla de pesquisa em torno das possíveis vinculações dos sociólogos com a esfera pública e com públicos externos às universidades. O presente trabalho procura discutir possíveis diálogos e interfaces entre o debate relacionado à “história pública” e aquele vinculado à “sociologia pública”, procurando tanto compreender linhas de aproximações e divergências entre esses dois campos de reflexão, quanto os dilemas e desafios enfrentados por aqueles profissionais que pretendam tornar públicos os conhecimentos acadêmicos produzidos e estabelecer relações mais orgânicas com audiências externas aos muros das universidades. Procuraremos, à guisa de conclusão, sustentar a necessidade de se formular, a partir do diálogo entre “história pública” e “sociologia pública”, uma abordagem que abra caminhos para se pensar de forma mais ampla e sistemática a relação das universidades com a agenda pública e com públicos extra-acadêmicos em uma perspectiva interdisciplinar.

História Pública e Cultura Histórica: trabalhando com a noção de “público”

Flavia Renata Machado Paiani – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

espereaprimavera@bol.com.br

Se remontarmos ao conceito de História Pública, esboçado pelo historiador estadunidense Robert Kelley em 1978, podemos interpretá-lo a partir de um viés institucional: “o emprego de historiadores e do método histórico fora da academia”. É certo, porém, que o conceito expandiu-se e modificou-se ao longo das décadas, de acordo com o país que o empregasse. A história pública assumiria, assim, formas diversas – desde museus e arquivos até plataformas digitais –, tendo como objetivo atingir um público mais amplo. De modo análogo, o conceito de Cultura Histórica, propagado pelo historiador alemão Jörn Rüsen, sintetizaria “a universidade, o museu, a escola, a administração, os meios e outras instituições culturais como conjunto de lugares de memória coletiva”. A cultura histórica estaria voltada, portanto, ao “papel da memória histórica no espaço público”. É justamente esta noção de “público” que se pretende analisar nesta comunicação, pois a partir dela desenrolam-se os pontos de intersecção entre História Pública e Cultura Histórica, seja o “público” pensado enquanto “audiência”, seja o “público” pensado em oposição ao “privado”.

 

Cada um no seu quadrado, parte II, ou Algumas observações sobre ética e história pública

Ricardo Santhiago – UFF

rsanthiagoc@gmail.com

Nesta apresentação, farei alguns apontamentos a respeito da “ética da história pública”, colocando em questão a existência de uma especificidade para os debates éticos nesse campo. Dividirei a apresentação em três partes: a revisão de argumentos anteriores acerca de ética em história oral; os dilemas enfrentados em uma pesquisa atual, que desloca memórias de sua condição anônima para sua condição revelada e desejavelmente pública; a avaliação da produção intelectual estrangeira, no campo da história pública, sobre ética.

 

A disponibilização de fonte para os estudos Inquisitórias

Eloy Barbosa de Abreu – Universidade Federal de Pernambuco

eloyabreuclio@gmail.com

Qual relação se pode estabelecer entre as fontes inquisitoriais, o campo antropológico, a justiça e a micro-história? Para responder a esta indagação faz-se necessário primeiramente um esclarecimento sobre o que definimos como fonte inquisitorial. As práticas do Tribunal do Santo Ofício na América portuguesa produziram milhares de processos e denúncias que se constituem em um riquíssimo corpus documental para os pesquisadores interessados em historiar a atuação da Inquisição no Brasil colonial. Recentemente, a disponibilização de fontes do arquivo da Torre do Tombo no campo virtual vem ampliando a produção historiográfica sobre o tema da atuação do Tribunal da Santa Inquisição na América portuguesa. As visitações as localidades pelo poder eclesiástico e secular foi uma prática que se perpetuou desde a época medieval e se estendeu para as áreas coloniais. Destas inquirições se forjavam as denúncias que, persuadiam, por intermédio do interrogatório, os indivíduos à delação. É, sobretudo, a possibilidade de historiar percepções da realidade dos conflitos sociais, políticos e religiosos na América portuguesa a partir dos depoimentos, confissões e denúncias aos agentes da inquisição, que nos interessa refletir aqui, podendo a partir da análise dessas referidas fontes construir trajetórias de indivíduos que caíram nas malhas da inquisição.

 

O segundo “Gimba”: adaptação como reescritura

Tatiana de Almeida Nunes da Costa – Pontifícia Universidade Católica

tialmeida2002@yahoo.com.br

O presente trabalho objetiva uma reflexão a respeito das tensões da autoria na produção literária contemporânea, direcionando o olhar, mais especificamente, para o espaço ocupado por uma escrita ficcional que se estende ancorada na experiência do sujeito autoral. Para tanto, tomamos como referência a adaptação textual de “Gimba, presidente dos valentes”, realizada no ano de 2010 pelo escritor Paulo Lins em parceria com o diretor teatral Carlos Henrique Botkay. Elaborada originalmente no ano de 1958, pelo autor e ator Gianfrancesco Guarnieri, a obra partilhava do sentimento de necessidade de nacionalização do teatro brasileiro, procurando levar aos palcos o universo da favela, da malandragem, do samba, como sinônimo de brasilidade. Passados 50 anos da montagem original, o espaço da favela agora é relido com um toque a mais, a saber, a perspectiva de um ex-residente, assim, reaquecendo a querela dos limites entre o documental e o ficcional.

 

Star Trek Into Darkness e a historiografia após 11 de setembro

José Antonio Vasconcelos – USP/ UNICAMP

 

O Filme Star Trek Into Darkness, de 2013, em diversos momentos faz alusão aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ao Pentágono e a Nova York, e à subsequente perseguição a Osama Bin Laden como parte da “Guerra ao Terror”. O personagem Khan, que na série original era um ditador do final do século XX encontrado pela Enterprise em estado de hibernação numa nave à deriva, é reapresentado no longa metragem como um terrorista com relações secretas e ambíguas com altas esferas da Frota Estelar. O filme tem como pano de fundo o conjunto de convicções morais e políticas que faziam parte do discurso da nação estadunidense antes de 2001 e que tiveram de ser repensadas a partir de acontecimentos até então inusitados. Minha comunicação visa estabelecer um paralelo entre o apelo do capitão Kirk, ao final do filme, para que voltassem a ser aquilo que já foram outrora, a e questão da identidade nacional na historiografia estadunidense após 11 de setembro. Em outras palavras, trata-se de entender como a história influencia e é influenciada pelo forte abalo emocional sofrido pelo público em geral, e pela progressiva construção de uma nova autoimagem da nação.