GT 07 – História Pública e Culturas Populares


GT 07 – História Pública e Culturas Populares

 

Coordenadores:
Álvaro Pereira do Nascimento (UFFRJ)
Daniela Yabeta (UFF)
Hebe Mattos (UFF)
Martha Abreu (UFF)

 

O Enredo de Escola de Samba e a História Pública: discurso, autoria, coletividade e memória

Eduardo Pires Nunes da Silva – Colégio Pedro II

eduardopiresnunes@hotmail.com

Durante grande parte do século passado e início deste, as Escolas de Samba através de seus enredos, foram plataformas públicas e por vezes populares para História em seu sentido amplo. Os enredos, em geral sem aporte do conhecimento acadêmico, ganharam usos políticos significativos, em especial na cena social carioca. Se por um lado biografias foram exaltadas, “grandes acontecimentos” relembrados outros enredos também já apresentaram críticas sociais e problematizaram o passado. Essa comunicação busca refletir sobre os significados e a capacidade histórica do enredo de Escola de Samba através de quatro pontos nodais. O primeiro ponto, que permeia todos os outros, é que o enredo é uma prática discursiva que tem uma ordem, tal qual a episteme Michel Foucault. O segundo ponto concerne sobre a autoria do enredo que na maioria das vezes é dilacerada por múltiplos interesses, desde o patrono da agremiação, passado pelo carnavalesco e até os interesses comerciais de eventuais patrocínios. A coletividade na realização dos enredos é o terceiro ponto. Este ponto está diretamente ligado à História Pública pelo caráter preponderantemente coletivo da mesma. Portanto, tanto a confecção do enredo é matizada por um coletivo de autores, como o público deste enredo é diversificado e amplo. O último ponto que cerca os significados e a capacidade histórica dos enredos é a memória. Ancoro a análise desse ponto na noção de “lugares de memória” de Pierre Nora em que o indivíduo contemporâneo tem a necessidade de se apegar a esses lugares, gerando pertencimento. A narratividade de desfile de Escola de Samba trama um pertencimento – por vezes afetivo – dos desfilantes com o enredo cantado na passarela. Assim, para além da festividade, o desfile de Escola de Samba é um espaço de construção de conhecimento histórico de alternativa popular e pública.

 

Experiência de História Pública na Festa de Congada e Moçambique em Minas Gerais

Lívia Nascimento Monteiro – UFF

lnascimentomonteiro@gmail.com

O objetivo dessa comunicação é apresentar partes da tese de doutorado, em andamento, sobre as festas de Congada e Moçambique de Piedade do Rio Grande – Minas Gerais, também conhecidas como Festa do Rosário. Proponho, mais especificamente, compartilhar uma experiência de produção de história pública, empreendida na festa ocorrida em 2014, que envolveu os membros dos ternos de congada e moçambique, uma pequena equipe de filmagem e que tem como produto final, um projeto de narrativa historiográfica, a partir das fontes orais e visuais produzidas nesse contexto. Ao difundir o conhecimento histórico para além do espaço escolar, a história pública amplia as abordagens e os novos modos de fazer história, além de propor uma nova relação entre os historiadores, os públicos diversos a quem se dirigem e os atores sociais envolvidos na narrativa histórica. Em conjunto com a história oral, diversas narrativas congadeiras e moçambiqueiras foram contadas e filmadas no decorrer dos três dias de festa, fazendo emergir a memória da escravidão e da abolição no tempo presente. Em se tratando de uma manifestação cultural negra, como é reconhecida a festa do Rosário, a história pública torna-se instrumento importante para a divulgação desse patrimônio imaterial, o que exige, por parte do pesquisador, uma gestão ética das narrativas e memórias envolvidas. Pretendo narrar, também, como os sujeitos sociais congadeiros e moçambiqueiros lidam com a história contada na linguagem audiovisual.

 

Universos cruzados e trocas culturais na produção do carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro: dos antigos barracões à Cidade do Samba

Luiz Anselmo Bezerra – UFF

luizanselmo80@gmail.com

Pensando a respeito dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, podemos dizer que o filólogo e historiador russo Mikhail Bakhtin tinha mesmo razão ao afirmar que o carnaval se situa entre a arte e a vida. Essa ideia surgiu do seu esforço para compreender as fontes de criação da obra cômica de François Rabelais, e será tomada como pressuposto do presente trabalho porque a literatura especializada no tema das escolas de samba mostra que, desde os primeiros concursos oficiais, nos desfiles carnavalescos tudo o que constitui a vida propriamente social se mistura configurando um fenômeno social total. Seguindo a definição do conceito de Marcel Mauss, diríamos que no carnaval das escolas se exprimem de uma só vez instituições religiosas, jurídicas, políticas, familiares e econômicas. Em vista de tamanha complexidade, nosso propósito é focar no processo de produção do desfile considerando dois contextos distintos para daí debatermos o caráter coletivo das atividades de trabalho e as trocas culturais realizadas em virtude da presença de agentes de diversos universos sociais entrecruzados na escola de samba por força da lógica simbólica que preside o referido processo. Essas questões serão desenvolvidas através de uma retrospectiva dos carnavais de João Trinta na Escola de Samba Beija-Flor, porque nesse caso disponho de entrevistas feitas mediante a metodologia da história oral com antigos membros da equipe de trabalho do carnavalesco e, além disso, um acervo fotográfico que documenta o trabalho no barracão da escola de samba entre 1988 e 1992. Uma pequena seleção dessas fotografias deverá se exibida com intuito de discutirmos não só a relevância da documentação produzida pelo então aderecista e fotógrafo Valtemir Valle sobre o barracão da escola de samba, mas também o uso da fotografia no âmbito de um trabalho cuja metodologia se fundamenta na história oral. Por fim, serão levantados alguns pontos de comparação do processo de montagem das alegorias nos antigos barracões com o que vem acontecendo mais recentemente na Cidade do Samba, equipamento público instalado na região portuária. Para tanto, serão analisados relatos de profissionais do carnaval que acompanham toda essa trajetória, e ainda faremos um debate bibliográfico envolvendo a multiplicidade disciplinar de estudos até então realizados a respeito do atual momento do carnaval, pois desse modo pretendemos demonstrar que a produção dos desfiles carnavalescos ainda guarda costumes nas práticas de trabalho que resistem a uma série de inovações no processo de montagem das alegorias.

 

Toalha da saudade: Luiz Gama, Batatinha e Deraldo Lima – história pública na Casa de Batatinha.

Bruno Rodrigues de Lima – Escola Superior da Defensoria Pública do Estado da Bahia – ESDEP

brlima.adv@gmail.com

A Casa de Batatinha, homenagem ao lendário sambista, ainda hoje reúne rodas de samba e de conversa a respeito da tradição musical e poética da Bahia. Funcionando desde 1982, com o nome de Toalha da Saudade, nome do primeiro disco do compositor, o espaço recebe atualmente a exposição de reabertura da Galeria 13 – a mais antiga galeria de arte do centro histórico de Salvador. Esse encontro de “casas culturais”, que acontece desde junho de 2014, não sem razão, traz em sua atuação conjunta o referencial político e estético das memórias de três grandes personalidades da história do povo baiano, a saber, o compositor Batatinha, o artista plástico e ativista cultural Deraldo Lima e o jurista abolicionista Luiz Gama. A homenagem que se presta nessa ação contínua, com a exposição de reabertura da Galeria 13 e semanais rodas de samba e de conversa, reconhece nos três poetas valiosos intérpretes do imaginário brasileiro. O reconhecimento de suas obras e do percurso formativo que tiveram contrastam com as leituras mais repercutidas da história da cidade e do Brasil; conhecer estas obras, em alguma medida, sugere um outro entendimento do que se convencionou narrar o que é a história local. A programação cultural que vem acontecendo na Casa de Batatinha, referência da tradição popular do samba, dialoga com aspectos do que se entende por história pública, isto é, a história feita por seu público, contada a partir do local em que pulsa e forma imagens e que vem a reconstruir sua própria memória histórica. Na presente comunicação, pretende-se apresentar essa experiência, em andamento, de recuperar a identidade histórica da cultura popular da Bahia, através do legado dos poetas citados e suas narrativas a respeito da cidade, da cidadania, da arte, da cultura e da dimensão ética do ser humano.

 

Culturama

Alcides Santos de Magalhães;Luiz Marcio Santos Farias e Rosiléia Santana da Silva – Grupo de Pesquisa do Laboratório de Integração e Articulação entre Pesquisas em Educação Matemática e Escola

allciddes06@gmail.com

Culturama, projeto em forma de oficina que compõe umas das diversas ofertas do Centro Juvenil de Ciência e Cultura localizado em Salvador – Bahia, Unidade Escolar Estadual, que visa traçar um intenso diálogo entre a educação informal e formal, buscando oferecer aos educandos, que livremente se matriculam, uma experiência educacional através do uso de múltiplas linguagens, do fazer ciência em diálogo com a cultura tendo em vista o uso das tecnologias. A Oficina Culturama tem como objetivo diluir essa relação entre o sujeito e o objeto da Cultura, pois ao possibilitar que o educando vivencie fenômenos culturais diversos, os identifiquem; os signifiquem e quem sabe até o ressignifiquem faz surgir uma possibilidade dialógica e dialética que remete a compreensão de si mesmo enquanto sujeito histórico crítico. A realização da vivencia e a prática do registro, com recursos tecnológicos utilizados para este fim, como máquinas filmadoras e ou fotográficas, potencializam a produção autoral de conhecimento pelo educando em consonância com grandes temas despertos e relacionados, sem abandonar o suporte teórico propedêutico que a referende ou a contrapunha. Com um tempo total de 30h, dividida em 12 tempos de aula, se encontra em execução na UE vigente, onde em cada aula se produz um produto especifico, seja de ordem textual, áudio visual ou visual, ou de maneira conjunta buscando compor coletivamente elementos itinerantes para um blog ou site de mesmo nome da oficina. Desta forma, busca se a Cultura em perder de vista a sua historicidade. E é através dos eventos culturais que ocorrem em cada canto da histórica cidade do Salvador, que os educandos, envolvidos no processo, se percebam enquanto seres possíveis, mudando consequentemente as suas relações consigo mesmo e com seu entorno. Esse projeto é realizado no Centro Juvenil de Ciência e Cultura-Salvador sendo objeto de estudo do Grupo de Pesquisa parceria UEFS-UFBA coordenado pelo professor Dr. Luis Marcio Santos Farias.

 

 

Higienização e Repressão aos Xangôs: as Tramas Negras de Resistência na Catimbolândia do Recife (1920-40).

Bruno Maia Halley – UFF

bhalleype@hotmail.com

O trabalho aborda a apropriação espacial realizada pelos grupos sociais negros nas circunvizinhanças do rio Beberibe, numa área do nexo urbano Recife-Olinda, outrora denominada pejorativamente por Catimbolândia, pelos diários de notícias de 1920/30, em razão da forte presença de xangôs então ali existentes. Com efeito, analisar-se-á a formação deste território, sobretudo na porção drenada pelo rio Água Fria (afluente do rio Beberibe), cujas margens concentravam a maior parcela de terreiros, que em face à perseguição antes vivenciada, articulavam mecanismos de resistência. Subjacente à este contexto, vivenciava-se no Recife um processo de modernização e “higienização”, que engendrara o deslocamento dos mocambos e terreiros do centro para os arredores da planície, especialmente para área drenada pelo rio Beberibe. A partir deste instante observa-se uma forte perseguição aos adeptos do Xangô, tanto das religiões mediúnicas e da Igreja Católica, como do Estado e de seus aparelhos e instituições repressoras, que fiscalizava e fechava os terreiros através da polícia e do Serviço de Higiene Mental de Pernambuco, cujos médicos-psiquiatras e intelectuais regulamentavam o funcionamento ou não das casas de culto. Através destes contatos, estes indivíduos estabeleceram uma relação próxima com os negros, ao ponto de organizarem conjuntamente o 1° Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, em 1934. Havia, assim, uma espécie de mediação cultural nestas relações, que no bojo da Catimbolândia podem ser entendidas como tramas negras de resistência, sobretudo quando observadas a partir das imposições do Estado Novo (1937-45), que desejava realizar uma remodelação urbanística no Recife, afora uma “disciplinarização” dos seus habitantes diante do novo. À luz deste quadro, destaca-se o controle e repressão sobre os negros, tidos como indivíduos de cultura inferior, que, em rebatimento, buscaram criar estratégias territoriais na tentativa de garantir seus mocambos, trabalho e lazer, afora a manutenção de suas práticas. Através destas táticas – disfarces em agremiações carnavalescas, enfrentamento direto, controle de acesso etc. -, o “povo de santo” acabou por dotar de significados os espaços, participando efetivamente da transformação dos arrabaldes em bairros ao longo do rio Beberibe. É, pois, na esteira desta geografia histórica que se analisa a apropriação espacial dos negros no nexo urbano Recife-Olinda.

 

Notas sobre a participação no projeto “Apoio ao fortalecimento político e protagonismo das comunidades quilombolas do Rio de Janeiro” – o caso da Região dos Lagos (2013)

Daniela Paiva Yabeta de Moraes – UFF

danielayabeta@gmail.com

A comunicação tem como objetivo apresentar a experiência na participação do projeto “Apoio ao fortalecimento político e protagonismo das comunidades quilombolas do Rio de Janeiro” realizado durante o ano de 2013. O projeto foi desenvolvido por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, em parceria com a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj) e apoiado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Seus objetivos foram: 1) Apoiar ações de fortalecimento institucional das comunidades quilombolas, com ênfase na dimensão organizativa e controle social; 2) Promover o protagonismo dos quilombolas nos processos decisórios, fortalecendo sua identidade étnico racial, cultural e política. Para atuação direta junto as comunidades, o projeto dividiu o Rio de Janeiro em quatro regiões: 1) Região Sul; 2) Região Norte; 3) Região dos Lagos; 4) Região Serrana, atingindo um total de aproximadamente 30 comunidades. Cada uma dessas regiões contou com uma capacitadora (oficineira) para monitoramento e realização das oficinas: 1) elaboração de projetos; 2) políticas públicas; 3) legislação e direitos quilombolas. Minha atuação foi junto as comunidades remanescentes de quilombo da Região dos Lagos: 1) Sobara; 2) Caveira; 3) Botafogo; 4) Preto Forro; 5) Maria Romana; 6) Maria Joaquina; 7) Baía Formosa; 8) Rasa. O projeto também contou com a realização de dois encontros quilombolas estaduais, o primeiro realizado em maio e o segundo em dezembro de 2013, ambos na cidade de Araruama. Além das oficinas e dos encontros, como produto final foi produzida uma Cartilha de Direitos e um Atlas com informações (textos, vídeos e fotografias) das comunidades que participaram do projeto, também disponíveis na versão impressa e online.