GT 09 – História Pública e Fotografia


GT 09 – História Pública e Fotografia

 

Coordenadores:
Ana Maria Mauad (UFF)
Claudia Ferreira (Fotógrafa)
Helouise Costa (MAC/USP)
Silvana Louzada (UFF)

 

Fotografia, lugares de memória e história pública

Maria Teresa Villela Bandeira de Mello – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro / UERJ

tetebandmello@hotmail.com

O objetivo desta comunicação é desenvolver uma reflexão sobre a fotografia no âmbito dos arquivos públicos problematizando as diversas variáveis envolvidas nessa questão: a produção do registro fotográfico, seu ingresso num lugar de memória, os processos que a levam a se constituir enquanto fonte documental e seu potencial na difusão do conhecimento histórico dentro da perspectiva da história pública. Desde o seu surgimento e disseminação, a fotografia é investida de um forte valor documental baseado no seu dispositivo técnico, no âmbito de um regime documental da sociedade industrial. No que diz respeito ao surgimento das fotografias no universo dos arquivos, é possível observar sua utilização como registro das atividades de instituições desde a década de 1840 como é o caso dos arquivos de fugitivos criminais das polícias que surgem inicialmente na Bélgica, na Suíça e no estado norte-americano da Califórnia. Na medida em que a partir da segunda metade do século XIX a prática de produção e acumulação de registros fotográficos em escala institucional vai se desenvolvendo, observamos também, paulatinamente, o surgimento de um atributo que irá mudar o próprio estatuto da fotografia: trata-se da construção de seu valor de evidência e prova. Esse atributo está associado à emergência de novas instituições e práticas de observação e acumulação de registros, estas últimas exercidas pelos estados nacionais das sociedades industrializadas do período, como também por uma rede de instituições disciplinares em desenvolvimento que as adotam como práticas administrativas – como a polícia, as prisões, os asilos, os hospitais e as escolas. Além disso, ao longo desse processo, a fotografia tornou-se também objeto de colecionamento por parte de indivíduos, famílias e instituições. Nosso universo de análise incidirá sobre as coleções e arquivos fotográficos que integram o acervo do Arquivo Público do Estado do Rio Janeiro. Provenientes de diversos órgãos do executivo estadual e de coleções e arquivos privados, esses acervos possuem características diferenciadas quanto à sua natureza bem como às suas formas de produção e acumulação. Pretende-se, neste trabalho, delinear um quadro que permita o estabelecimento dessas especificidades e contribua para a utilização da fotografia na produção do texto histórico.

 

Parques, praças e jardins: a natureza recriada da capital paraense (1890-1910)

Rosa Claudia Cerqueira Pereira – UFPA

rccpereira25@gmail.com

Esta comunicação visa desenvolver uma abordagem que focaliza os modos de pensar historicamente a natureza urbanizada através da produção das imagens dos espaços públicos de Belém, conectadas à construção da urbe daqueles tempos, mediante uma multiplicidade de experiências, cotidianamente construídas. Na segunda metade do século XIX e início do XX, a cidade de Belém vivenciou a fase de esplendor e decadência da economia do látex. Os álbuns com fotografias encomendados pelos gestores públicos permitem identificar as diversas representações de cidade associadas ao poder público, à estética, à organização do espaço, ao trabalho, ao consumo e ao desenvolvimento, que podem ser compreendidos como a expressão de negação dos valores estéticos constituídos no período colonial. É possível entender a preocupação dos administradores em construir uma imagem moderna do Brasil Republicano, através do texto escrito e visual na tentativa de “desconstruir” a imagem depreciativa consolidada no velho continente. Portanto, a pesquisa sobre as imagens fotográficas de Belém durante o final do século XIX e início do XX, procura identificar e entender os “modos de ver” a cidade com a possibilidade de também compreender os “modos de fazer ver” e seus caminhos. A contribuição deste estudo se ancora no uso da fotografia como principal documento de análise, entendendo que a fotografia representa um testemunho que “fala” do passado.

 

A Arte da Fotografia em Miniatura

Marli Marcondes – UNICAMP

marlima@unicamp.br

O estudo das fotografias-miniaturas, também conhecidas como fotominiaturas ou fotoaquarelas, busca discutir sobre a origem desse gênero no Brasil durante o século XIX e trazer à tona suas técnicas e procedimentos, bem como analisar sua produção, comercialização e circulação no âmbito da sociedade oitocentista. Apesar de o termo fazer alusão a uma fotografia de pequena dimensão, a fotominiatura, que nem sempre era pequena pois chegava a medir até 20 cm, está associada cultural e esteticamente às miniaturas pintadas do século XVIII e início do XIX. Tecnicamente se buscou ajustar a fotografia a determinados suportes, principalmente o vidro, criando imitações de técnicas já consagradas na arte pictórica, como a miniatura pintada a óleo, guache ou aquarela sobre marfim. Desde o surgimento do daguerreótipo, sobretudo após a invenção da câmera de Alexander Walcott (1804-1844) em 1840 que produzia daguerreótipos de até 2 cm, surgiram os pequenos formatos fotográficos e uma variedade de processos colorizados ou pintados montados de tal forma que se parecessem às miniaturas. Assim, em meados da década de 1850 surgiu a marfinotipia, um termo genérico usado para designar as fotografias que eram tornadas transparentes, colorizadas e fixadas sobre vidro. Na mesma década e empregando o vidro como suporte, foi patenteado o processo denominado opalotipia, que também imitava as miniaturas em marfim. Entre os inúmeros formatos criados para exibir as falsas miniaturas pintadas está aquele que mais se aproximou das pinturas, o cristoleum, um procedimento de inigualável beleza. A técnica surgiu em 1880 e avançou até 1910. Além de exercerem a função de imitação das miniaturas em marfim, as fotominiaturas também eram criadas para compor as joias de afeto, ou seja, aquelas que serviam para estabelecer laços de amizade, condolências, contratos de casamento, etc. Encimadas por coroas, laureadas por diamantes, pérolas e pedras preciosas, a fotografia ocupava o lugar central nesses relicários. Essa diversidade de processos, técnicas e formatos também foi produzida no Brasil, mas apenas um número reduzido pode ser encontrado nos acervos dos museus e arquivos. Também corroboram essa presença no cenário brasileiro os anúncios dos estabelecimentos fotográficos publicados nos principais jornais dos grandes centros urbanos durante a segunda metade do século XIX.

 

Memória e narrativa visual nos álbuns de fotografias oitocentistas das Famílias Ferreira Lage e Cavalcanti

Rosane Carmanini Ferraz – UFJF e Fundação Museu Mariano Procópio

rocarmanini@hotmail.com

O presente trabalho tem como objetivo analisar a coleção de álbuns de fotografias oitocentistas das Famílias Ferreira Lage e Cavalcanti. O estudo é parte de uma pesquisa de doutorado que tem como tema o processo de formação da coleção de fotografias oitocentistas do Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora (MG) e sua trajetória, de acervo particular a acervo público. Trata-se de uma coleção de 25 álbuns, totalizando cerca de 1.000 fotografias. A grande maioria dos álbuns pertenceu ao colecionador Alfredo Ferreira Lage, fundador do Museu Mariano Procópio e à sua prima, Amélia Machado Cavalcanti, Viscondessa de Cavalcanti. Buscamos caracterizar a coleção, identificando as narrativas visuais contidas nestes álbuns, os principais temas, formatos, técnicas e fotógrafos. O álbum fotográfico se configurou como um instrumento privilegiado para o aumento do consumo de fotografias além de ter se tornado um indutor do hábito de colecionar retratos que tomou conta do século XIX. Considerado um dos grandes livros dos oitocentos, nos álbuns, as famílias colecionavam, além dos retratos de seus membros, retratos de amigos, da família imperial brasileira, de personalidades nacionais e estrangeiras, inclusive artistas, escritores, filósofos, líderes políticos, etc. Além dos retratos, estão presentes as paisagens, vistas urbanas e uma diversidade de imagens de caráter documental. A fotografia se configurou como uma forma de auto representação da elite e veículo privilegiado de representação da sociedade. A prática do colecionismo de fotografias contribuiu para a consolidação das redes de sociabilidade construídas entre as famílias da elite no Brasil monárquico. Vale ressaltar ainda que estes registros iconográficos são suportes de memória e importantes fontes de estudos relacionados às mais diferentes áreas do conhecimento. Marcada pela diversidade, a fotografia é fruto de um determinado contexto social que a produziu, ou seja, está intrinsecamente relacionada aos valores, costumes e gosto da sociedade desta época.

 

 

Espelhos Negros – uma breve análise das fotografias do jornal “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro” (1948-1950)

Daiana de Souza Andrade – UFF

prof.nanadesouza@gmail.com

A imprensa é um dos meios por excelência de publicizar as fotografias, contribuindo junto a outras mídias, instituições e atores sociais, na formação de um espaço público constituído também por imagens. O jornal “Quilombo: vida, problemas e aspirações do negro” era voltado para um público que pouco se via registrado fotograficamente em jornais na década de 1940 e tinha como um dos objetivos mostrar a importância dos negros para a história e a cultura do país. Para isso as imagens técnicas contribuíram bastante, ganhando logo destaque no periódico, elas podem ser vistas como espelhos, suportes nos quais os leitores podiam se mirar e ver reflexos daquilo que eles – também – podiam ser. Os negros fotografados do jornal eram atores e atrizes do Teatro Experimental do Negro e internacionais, jornalistas, bailarinas, cientistas sociais, vencedoras de concursos de beleza, representantes das artes, da intelectualidade e do belo, dando a ver uma representatividade longe dos estereótipos a que os negros eram muitas vezes ligados. O objetivo dessa comunicação é realizar uma breve análise das fotografias que este jornal da imprensa negra tornou públicas.

 

O patrimônio histórico em fotografia: Bahia e suas representações na década de 1940.

Lígia Conceição Santana – UNEB

ligiasantana@gmail.com

Esta pesquisa pretende discutir a participação dos fotógrafos e utilização da fotografia como testemunho/documento nos processos de tombamento instituídos na Bahia pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) após a aprovação do Decreto-lei 25/37. Neste período observamos uma memória visual sobre o patrimônio sendo paulatinamente construída e isso justificou a contratação de inúmeros fotógrafos que circularam pelas principais cidades do país para construir o que devia ser lembrado. A cena política esteve favorável para o desdobramento desta metodologia de trabalho e para a atuação dos fotógrafos e técnicos que colaboraram decisivamente com a disseminação de uma idéia/sentido de patrimônio a ser preservado. Neste trabalho discutimos a atuação do SPHAN nas primeiras décadas de trabalho na Bahia.